Perdido em Marte acompanha o astronauta Mark Watney tentando permanecer vivo com recursos limitados, conhecimento técnico e uma quantidade impressionante de improviso. A premissa nasceu como ficção, mas grande parte dos problemas enfrentados pelo personagem é a mesma que engenheiros e cientistas estudam para futuras missões humanas.
Aviso: este artigo contém spoilers. O filme acerta ao mostrar que, em Marte, ar, água, comida, energia e comunicação formam um único sistema — a falha de qualquer parte pode ameaçar todas as outras.
A tempestade inicial não teria aquela força
Tempestades de poeira marcianas são reais. Elas podem cobrir continentes, durar semanas e, em alguns casos, envolver o planeta inteiro. O problema para o roteiro é que a atmosfera de Marte tem cerca de um por cento da densidade da atmosfera terrestre.
Mesmo com ventos rápidos, o ar exerce pouca força sobre equipamentos grandes. A NASA considera improvável que uma tempestade marciana derrubasse estruturas e lançasse objetos pesados como acontece no início da história. O perigo verdadeiro seria a poeira cobrindo painéis solares, entrando em mecanismos e reduzindo a geração de energia.
As batatas são uma escolha inteligente
Batatas fornecem muitos carboidratos, podem produzir bastante alimento em pouco espaço e conseguem gerar novas plantas a partir de partes do tubérculo que contenham brotos. Essa lógica mostrada no filme é real e a NASA já pesquisou o cultivo de batatas em ambientes controlados.
O problema é chamar o regolito marciano de solo fértil. Ele é principalmente rocha fragmentada, sem a matéria orgânica e sem a comunidade de microrganismos que sustentam o solo terrestre. Seria necessário fornecer nutrientes, controlar água, temperatura, pressão, iluminação e impedir a contaminação do ambiente.
O regolito precisaria ser tratado
A superfície marciana contém sais de perclorato em concentrações prejudiciais a muitas formas de vida e capazes de dificultar o cultivo. Projetos apoiados pela NASA estudam microrganismos que poderiam remover esses compostos e transformar simulantes de regolito em um substrato mais rico.
Usar resíduos humanos como fonte de nutrientes aponta para a importância da reciclagem, mas uma missão real precisaria processá-los de maneira controlada para reduzir patógenos e dosar os nutrientes. Sistemas hidropônicos, fertilizantes levados da Terra e água rigorosamente tratada seriam opções mais previsíveis para as primeiras tripulações.
Água existe, mas não está pronta para beber
Há depósitos de gelo de água sob a superfície de Marte, alguns relativamente rasos em latitudes médias. Esse recurso poderia abastecer pessoas e plantas e também participar da produção de combustível. Explorar materiais disponíveis no destino recebe o nome de utilização de recursos in situ.
Encontrar gelo, entretanto, é apenas o começo. Seriam necessários equipamentos para escavar, aquecer, separar contaminantes e reciclar praticamente cada gota. O improviso de Watney traduz um princípio correto — produzir localmente o que não pode ser trazido em quantidade suficiente —, mas uma missão dependeria de sistemas redundantes e testados antes do pouso.
A ameaça silenciosa é a radiação
Marte não oferece a mesma proteção magnética e atmosférica da Terra. O instrumento RAD do rover Curiosity mede na superfície partículas vindas de raios cósmicos galácticos e de eventos solares. Uma permanência longa exigiria áreas protegidas e protocolos para tempestades solares.
O filme dedica menos atenção a esse risco do que ele provavelmente receberia em uma missão real. Habitats poderiam usar água, materiais especiais ou o próprio regolito como parte da blindagem. O planejamento também precisaria proteger as plantas, que ficariam em um ambiente pressurizado e controlado.
A solidão tecnológica seria real
Mensagens entre Marte e a Terra levam minutos para atravessar o espaço em cada direção. Dependendo da posição dos planetas, o atraso pode ultrapassar vinte minutos. Isso impede conversas em tempo real e obriga a tripulação a diagnosticar falhas e tomar decisões sem ajuda imediata.
Nesse aspecto, Perdido em Marte captura muito bem a essência de uma missão distante: sobreviver não dependeria de uma única invenção espetacular, mas de conhecimento, autonomia, manutenção constante e capacidade de reaproveitar recursos.
- Pouco plausível: a tempestade capaz de destruir a base.
- Plausível: cultivar batatas como fonte eficiente de calorias.
- Necessário: tratar regolito, água e resíduos antes do uso.
- Subestimado: exposição prolongada à radiação.
- Muito real: comunicação atrasada e necessidade de autonomia.
FONTES CONSULTADAS

